William Shakspeare abordou os efeitos do álcool na performance sexual em suas obras.
Em “Macbeth” (Ato2, Cena 3) o personagem do porteiro diz: “it provokes the desire, but it takes away the performance”.
Traduzindo: [O álcool…] ”provoca desejo mas tira o desempenho.”
Entenda como o álcool age no organismo em relação ao desempenho sexual:
É bastante frequente a menção à associação entre sexo e álcool nas redes sociais, mídias, festas e ambientes de socialização, sempre enfatizando a ideia de que a bebida alcoólica é um agente afrodisíaco.
Afinal, o álcool pode aumentar a libido e melhorar o desempenho sexual?
O álcool é um depressor do sistema nervoso central!
Em doses baixas pode provocar uma sensação de bem-estar e relaxamento, induzindo à desinibição e à autoconfiança. Mas, fato é que, em doses abusivas, bebidas alcoólicas diminuem a excitação sexual e comprometem a ereção peniana.
Uma reação parecida é observada nas mulheres: embora relatem aumento da excitação sexual (cerebral), a excitação genital (lubrificação vaginal, por exemplo), é diminuída em decorrência de doses excessivas de álcool.
A bebida alcoólica em excesso não ajuda em nada o desempenho sexual! Esse é um falso mito que precisa ser combatido.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que não existe um nível de consumo de álcool que seja completamente seguro para a saúde. No entanto, estabelece diretrizes para o consumo moderado de bebidas alcoólicas: homens e mulheres não devem exceder duas doses padrão em 24 horas (1 dose padrão = 10 gramas de etanol, puro, o que equivale a aproximadamente:
– 350 ml de cerveja (contendo 5% de álcool)
– 150ml de vinho (contendo 12% de álcool)
– 45ml de destilados (contendo 40% de álcool)
E essas, são recomendações para pessoas saudáveis…
De acordo com a Clínica Mayo, à medida que os níveis de álcool sobem no sangue, o cérebro se torna progressivamente menos ativado pela estimulação sexual. O álcool prejudica a comunicação entre o cérebro e o pênis e pode afetar a resposta erétil.
Além disso, em mulheres, a desidratação acarreta a secura vaginal. A falta da lubrificação vaginal pode contribuir para uma penetração peniana dolorosa e desconfortável.
O álcool pode ainda afetar a ejaculação e o orgasmo:
Em geral, retarda, ou mesmo bloqueia a ejaculação. Mas, em alguns indivíduos mais propensos, pode resultar no oposto: a precocidade ejaculatória.
Quanto ao orgasmo, pode afetar sua intensidade ou mesmo impedir que ocorra: a redução da sensibilidade (efeito anestésico do álcool) pode diminuir a sensação de prazer durante o orgasmo. Se o bloqueia completamente, a condição é denominada anorgasmia temporária.
Outro efeito, hormonal, indesejável do álcool: ele aumenta os níveis do cortisol, o “hormônio do estresse”, liberado pelas glândulas suprarrenais
Um efeito altamente indesejável: o álcool também aumenta a conversão da testosterona (hormônio tipicamente masculino) em estradiol (hormônio tipicamente feminino), resultando em efeitos feminilizantes.
Como se não bastasse, o álcool e seus metabólitos (principalmente o acetaldeído) têm efeitos tóxicos diretos sobre as células de Leydig do testículo reduzindo a atividade das enzimas responsáveis pela síntese da testosterona.
Definitivamente, álcool e sexo não combinam… Mas, essa é uma combinação frequente durante o Carnaval!
CONTEÚDO EXPANDIDO E OUTRAS CONSIDERAÇÕES
I – OS EFEITOS DO ÁLCOOL NO SISTEMA NERVOSO CENTRAL (SNC) E NO SISTEMA ENDÓCRINO:
O álcool atua como um depressor do SNC, afetando a liberação de neurotransmissores (#####) e a modulação da atividade hormonal (#####).
inicialmente, pode promover um efeito desinibidor reduzindo a atividade da córtex pré-frontal, área cerebral responsável pelo autocontrole e o julgamento social.
Em doses mais elevadas, reduz a produção de dois importantes neurotransmissores: a dopamina ( particularmente considerada “a molécula do prazer”) além da serotonina, essenciais à excitação, ao desejo e à própria atividade sexual.
Além disso, pode afetar a produção da testosterona.
Normalmente, a produção de testosterona envolve três níveis: o hipotálamo (localizado no cérebro e produtor da gonadorelina, ou Gn-RH), que estimula a hipófise (produtora do hormônio luteinizante, ou LH) e as células testiculares (células de Leydig). Sob o comando do LH essas células, finalmente, produzem a testosterona. Pois bem, o álcool inibe a produção da Gonadorelina (Gn-RH), comprometendo toda essa cadeia de produção do chamado eixo H-H-T (hipotálamo-hipófise-testículo).
E esses mecanismo (inibição da Gonadorelina) é igualmente afetado nas mulheres. No sexo feminino o eixo hormonal é semelhante, sendo o testículo substituído pelo ovário. Assim, nos referimos ao eixo H-H-O (hipotálamo-hipófise-ovário).
De forma análoga, neste caso, o LH hipofisário estimula as células da teca interna do folículo ovariano que respondem produzindo dois hormônios: a testosterona e um precursor seu, a androstenediona (facilmente nela convertida).
A camada reticular das glândulas suprarrenais também produzem (nos dois sexos) a androstenediona e outro precursor da testosterona: a dehidroepiandrosterona (DHEA).
Ainda nas suprarrenais, aumenta a produção do cortisol (o “hormônio do estresse”), que inibe a produção da testosterona e antagoniza seus efeitos nos órgãos e tecidos-alvo desse androgênio.
Entre outros efeitos, o cortisol diminui a sensibilidade dos receptores da testosterona, sem os quais ela não exerce seus efeitos; mesmo circulando em níveis normais. No cérebro, esse efeito pode comprometer o comportamento sexual e aumentar a agressividade
Como se não bastasse, O álcool compromete o fluxo sanguíneo para atingir e manter uma ereção.
Além disso, desidrata o organismo, o que leva ao aumento da angiotensina. A angiotensina II (forma ativa desse peptídeo), é um vasoconstritor potente, e pode afetar o afluxo de quantidades adequadas de sangue aos corpos cavernosos do pênis para uma ereção eficaz.
Os homens podem ainda ser penalizados com ejaculações retardadas ou mesmo a denominada “anorgasmia alcoólica”. Por outro lado, em indivíduos propensos, com o oposto: precocidade ejaculatória.
Nas mulheres, o álcool pode afetar a percepção da excitação, aumentando a percepção do desejo, sem necessariamente intensificar as respostas fisiológicas dele decorrentes: os mais notórios, a redução da sensibilidade das áreas e estruturas genitais, a lubrificação vaginal, e o afluxo sanguíneo aos tecidos eréteis da genitália feminina: à semelhança dos homens elas os possuem, periuretrais, no clitóris e nos grandes lábios vaginais.
E mais, doses excessivas de bebidas alcoólicas podem, nelas, reduzir a intensidade do orgasmo, ou mesmo bloqueá-lo.
II – ÁLCOOL, CONSENTIMENTO E RISCOS ÉTICOS
O álcool pode afetar a capacidade de uma pessoa tomar decisões conscientes e voluntárias, o que aumenta o risco de relações sexuais não-consensuais, vulnerabilidade a abusos e dilemas éticos e legais.
O conceito de consentimento informado é essencial para interações sexuais saudáveis e respeitosas. Principalmente, se recentes ou casuais. Para tanto, pressupõe-se que ambas as partes estejam: a) conscientes e lúcidas para tomarem decisões; b) livres de coerções, manipulações ou influências externas; c) capazes de expressar claramente sua vontade.
Se uma pessoa estiver tão alcoolizada que não consegue “dar um sim”, claro, consciente, ou até entusiástico, qualquer relação sexual pode ser considerada não-consensual!
III – VULNERABILIDADE, COERÇÃO E ABUSO SEXUAL
O álcool é um dos principais facilitadores da violência sexual. Pesquisas mostram que:
a) cerca de 50% dos casos de violência sexual envolvem a ingestão de bebidas alcoólicas, tanto por parte do agressor, como por parte da vítima; b) mulheres alcoolizadas são mais propensas a serem vítimas de assédio e abuso sexual; c) a embriaguez pode prejudicar a capacidade da vítima de se defender ou de relatar o ocorrido com precisão, posteriormente.
IV – DOENÇAS SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS (DSTs), SEXO CASUAL E ÁLCOOL
A embriaguez aumenta em cerca de 60% a desproteção e a exposição a DSTs dado à redução da capacidade de julgamento, à impulsividade e à diminuição da percepção da exposição ao risco. Expõem-se por: a) não usar preservativos; b) ter múltiplos parceiros; c) subestimar os sinais de alerta em relação a DSTs: HIV/AIDS, Sífilis, Clamídia, Gonorreia, HPV e Herpes, principalmente.
Acrescente-se a estes riscos o da gravidez indesejada.
V – O ÁLCOOL NO CARNAVAL
O álcool tem uma presença central nas festas de Carnaval. É amplamente consumido em blocos de rua, festas privadas e desfiles. Pode induzir a: a) maior sociabilidade; b) euforia e sensação de liberdade; c) redução da percepção de riscos; d) ao descumprimento de normas estritas em relação ao consentimento claro e inequívoco (“Não é Não”) e ao assédio sexual.
VI – REPERCUSSÕES MÉDICAS DA EMBRIAGUEZ AGUDA DE ALTO GRAU
1 – SISTEMA NERVOSO CENTRAL
a) Coordenação motora prejudicada: comprometimento de atividades simples, como falar ou andar. Direção inconsequente e de alto risco na condução de veículos.
b) Amnésia alcoólica (“blackout”), com sérias lacunas de memória.
2 – SISTEMA CARDIOVASCULAR
Aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca, podendo acarretar arritmias em pessoas predispostas. Risco de acidentes vasculares cerebrais (AVCs).
3 – SISTEMA DIGESTIVO
a) Irritação da mucosa gástrica, com náuseas, vômitos e dor abdominal.
b) Em estado de inconsciência: risco de aspiração do vômito
4 – SISTEMA HEPÁTICO
O fígado metaboliza o álcool, mas seu consumo excessivo pode ultrapassar a capacidade hepática de processá-lo e levar ao acúmulo das toxinas no sangue, com destaque para o acetalaldeído, responsável pela sensação de ressaca.
5 – COMA ALCOÓLICO
É uma condição extrema e grave, – uma emergência médica que requer intervenção imediata -, em geral decorrente do consumo de altas doses de álcool em curto período de tempo.
Pode ser fatal se não atendida a tempo e adequadamente!
5.1 – SINTOMAS DO COMA ALCOÓLICO:
a) Perda de consciência;
b) Respiração lenta e irregular;
c) Hipotermia;
d) Vômito e engasgo;
e) Pele fria, úmida e pálida;
f) Confusão mental e agitação.
5.2 – CONSEQUÊNCIAS DO COMA ALCOÓLICO:
a ) Lesões cerebrais;
b) Falência respiratória;
c) Pneumonia bronco-aspirativa;
d) Convulsões;
e) AVC
f) MORTE!
Beba com moderação. Feliz Carnaval!
VII – PARA QUEM QUER SABER MAIS
1 – Salari N, Hasheminezhad R, Almasi A, Hemmati M, Shohaimi S, Akbari H, Mohammadi M. The risk of sexual dysfunction associated with alcohol consumption in women: a systematic review and meta-analysis. BMC Womens Health. 2023 May 2;23(1):213. doi: 10.1186/s12905-023-02400-5. PMID: 37131197; PMCID: PMC10155345.
2 – Peugh J, Belenko S. Alcohol, drugs and sexual function: a review. J Psychoactive Drugs. 2001 Jul-Sep;33(3):223-32. doi: 10.1080/02791072.2001.10400569. PMID: 11718315.
3 – Finn DA. The Endocrine System and Alcohol Drinking in Females. Alcohol Res. 2020 Jul 23;40(2):02. doi: 10.35946/arcr. v40.2.02. PMID: 32714716; PMCID: PMC7374925.
4 – Bryan AE, Norris J, Abdallah DA, Stappenbeck CA, Morrison DM, Davis KC, George WH, Danube CL, Zawacki T. Longitudinal Change in Women’s Sexual Victimization Experiences as a Function of Alcohol Consumption and Sexual Victimization History: A Latent Transition Analysis. Psychol Violence. 2016 Apr;6(2):271-279. doi: 10.1037/a0039411. PMID: 27213101; PMCID: PMC4873161.
5 – Folco KL, Fridberg DJ, Arcurio LR, Finn PR, Heiman JR, James TW. Neural mechanisms of sexual decision-making in women with alcohol use disorder. Psychopharmacology (Berl). 2021 Jul;238(7):1867-1883. doi: 10.1007/s00213-021-05815-w. Epub 2021 Mar 19. PMID: 33738536; PMCID: PMC8238910.
6 – Gautron MA, Clergue-Duval V, Chantre J, Lejoyeux M, Geoffroy PA. Predictive factors of cognitive impairment in alcohol use disorder inpatients. Addict Behav. 2024 Nov; 158:108132. doi: 10.1016/j.addbeh.2024.108132. Epub 2024 Aug 13. PMID: 39146925.
7 – Mirijello A, Sestito L, Antonelli M, Gasbarrini A, Addolorato G. Identification and management of acute alcohol intoxication. Eur J Intern Med. 2023 Feb; 108:1-8. doi: 10.1016/j.ejim.2022.08.013. Epub 2022 Aug 16. PMID: 35985955.
8 – Vonghia L, Leggio L, Ferrulli A, Bertini M, Gasbarrini G, Addolorato G; Alcoholism Treatment Study Group. Acute alcohol intoxication. Eur J Intern Med. 2008 Dec;19(8):561-7. doi: 10.1016/j.ejim.2007.06.033. Epub 2008 Apr 2. PMID: 19046719.
9 – D’Angelo A, Petrella C, Greco A, Ralli M, Vitali M, Giovagnoli R, De Persis S, Fiore M, Ceccanti M, Messina MP. Acute alcohol intoxication: a clinical overview. Clin Ter. 2022 May 25;173(3):280-291. doi: 10.7417/CT.2022.2432. PMID: 35612344.

